Mato Grosso é o primeiro estado do país a formular e publicar política pública específica para etapa de 6º ao 9º ano

Análise de indicadores e escuta de profissionais de educação revelaram urgência e orientaram estratégia focada nos Anos Finais do Ensino Fundamental

Elaine Alves
25/02/2026 16h07 - Atualizado há 6 dias

Mato Grosso é o primeiro estado do país a formular e publicar política pública específica para etapa de 6º ao
Agência Ophelia

Mato Grosso se consolidou como o primeiro estado brasileiro a instituir uma política pública voltada especificamente  para os Anos Finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano). A iniciativa busca enfrentar desafios históricos dessa etapa de transição escolar e pode ser um exemplo de  modelo de gestão para todo o país.

A política está estruturada em nove eixos, que garantem uma abordagem sistêmica e integrada para o fortalecimento dos Anos Finais. Esses eixos (ver gráfico abaixo), somados a dois elementos transversais — o acompanhamento e monitoramento da política e o regime de colaboração —, orientam a alocação de recursos, a formação de educadores e o desenvolvimento curricular.

A formulação da iniciativa ocorreu por meio de um processo colaborativo e estruturado, com a participação de equipes técnicas de diferentes áreas da Seduc-MT (Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso), além de representantes do Itaú Social, da Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação) e do Conselho Estadual de Educação. O percurso teve início com uma imersão na realidade da rede estadual de ensino, que incluiu a análise de indicadores educacionais secundários e a escuta de profissionais da educação, evidenciando a urgência de uma estratégia específica para a etapa.

“Os avanços que temos alcançado na educação pública de Mato Grosso são fruto de um trabalho construído a muitas mãos, com diálogo, escuta qualificada e cooperação institucional. A parceria com entidades como o Itaú Social, a Undime e o Conselho Estadual de Educação fortalece nossas decisões e garante que as políticas públicas estejam ancoradas na realidade das escolas, nos indicadores educacionais e, principalmente, na voz dos profissionais que vivem o cotidiano da rede”, avalia o secretário de Estado de Educação, Alan Porto. 

O suporte metodológico do Itaú Social acompanhou a rede desde o desenho da política até a institucionalização do Decreto 1.705/2025. Para Cláudia Sintoni, gerente de Implementação no Itaú Social, o trabalho conjunto foi decisivo para a construção de uma resposta estratégica aos desafios enfrentados pela rede. “A formulação desta política pública, pautada também pela escuta dos adolescentes, é um passo fundamental para garantir uma escola que faça sentido para eles. O processo colaborativo favorece o comprometimento dos diversos profissionais que agora estarão responsáveis pela   implementação das ações e por fazer a política sair do papel e cumprir o seu objetivo  de fortalecer os anos finais”, afirma.

O aprofundamento do diagnóstico permitiu identificar práticas bem-sucedidas e apontar áreas que demandavam aprimoramento na gestão dos Anos Finais. A elaboração da política foi orientada por questões como a necessidade de maior integração entre a gestão pedagógica e a financeira, a atenção às desigualdades de raça, gênero e nível socioeconômico, o reconhecimento das especificidades da adolescência e o fortalecimento da colaboração entre estado e municípios.

A nova política surge em um contexto de avanços nos indicadores educacionais do Mato Grosso. Nos últimos dez anos, o estado reduziu a distorção idade-série para 3% e a taxa de abandono escolar para 0,1% — o equivalente a um em cada mil estudantes, segundo o Indicador de Distorção idade-série do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) de 2024.

Com foco central na redução das desigualdades e na promoção de um ensino alinhado às expectativas de quem vivencia o cotidiano escolar, a política ainda instituiu a CIPAF (Comissão Intersetorial de Governança da Política dos Anos Finais do Ensino Fundamental), responsável por monitorar a implementação das ações e articular as equipes técnicas da Seduc-MT.

Relatório inédito aponta percepções de adolescentes dos Anos Finais

A efetivação da política pública para os Anos Finais do Ensino Fundamental se deu ainda pela escuta de seus principais atores: os adolescentes. A iniciativa, que ouviu mais de 73 mil estudantes das redes municipais e estadual do Mato Grosso, insere-se no contexto do Relatório Nacional da Semana da Escuta das Adolescências, que mobilizou mais de 2,3 milhões de estudantes em todo o país a partir de 2024. As respostas foram coletadas pelo MEC (Ministério da Educação) em parceria com o Itaú Social, Consed e Undime, e foram organizadas  junto às turmas do 6º e 7º anos e do 8º e 9º anos, permitindo comparar as percepções entre as diferentes faixas etárias.

Os dados trazem à luz as percepções dos adolescentes sobre suas identidades, diversidades e os obstáculos à participação, servindo como um mapa para gestores e professores na construção de escolas mais inclusivas e transformadoras.

De acordo com o levantamento,  a compreensão sobre o ambiente escolar varia significativamente entre os ciclos. Para os estudantes de 6º e 7º anos, a escola é predominantemente um espaço de socialização e segurança emocional:

- 83% afirmam ter amigos ou amigas com quem gostam de estar.
- 72% confiam em pelo menos um adulto na escola.
- 68% sentem que os profissionais respeitam e valorizam os estudantes.

Já para os adolescentes de 8º e 9º anos, a escola ganha um foco mais utilitário e de preparação para o futuro, embora a socialização permaneça alta:

- 79% têm amigos ou amigas com quem gostam de estar.
- 62% destacam que a escola aumenta seus conhecimentos sobre as disciplinas.
- 60% sentem que estão se preparando para as escolhas do futuro (ensino médio, faculdade, trabalho, carreira etc.).

Quando questionados sobre os conteúdos que mais os fazem se desenvolver para a vida, os grupos demonstram prioridades distintas. Os mais novos valorizam disciplinas tradicionais, como Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza (48%), seguidas por esportes e bem-estar (39%) e artes e cultura (29%). Entre os mais velhos, a ordem se inverte, e um novo tema ganha relevância: esportes e bem-estar lideram com 38%, disciplinas tradicionais vêm em segundo, com 36%, e educação financeira surge como um tema essencial para 31% dos adolescentes mais velhos.

Em relação às atividades indispensáveis na escola do futuro, há um consenso notável entre os ciclos, que valorizam a prática e a tecnologia:

- Práticas esportivas (42% em ambos os grupos).
- Aulas práticas, com projetos e mão na massa (41% em ambos os grupos).
- Atividades com tecnologia e mídias digitais (40% nos 6º/7º anos e 39% nos 8º/9º anos).

Sobre as melhores formas de aprender na escola, o grupo de 8º e 9º anos demonstra maior preferência por experiências externas, com 44% citando visitas, passeios e trabalhos fora da escola (contra 38% dos mais novos). O trabalho em grupo é valorizado por 37% dos mais novos, mas cai para 31% entre os mais velhos.

Para a convivência escolar, a maioria dos adolescentes aposta em atividades lúdicas e competitivas. Nesse sentido, jogos, competições e olimpíadas são a principal sugestão, citada por 50% dos estudantes de 6º e 7º anos e 54% dos de 8º e 9º anos.

As preocupações com o ambiente escolar também se manifestam de formas diferentes:

- 34% dos estudantes de 6º e 7º anos pedem atividades que falem sobre bullying, racismo e prevenção de violências.
- 34% dos de 8º e 9º anos destacam a necessidade de melhorar os espaços da escola para a convivência.
- A segurança nos espaços da escola e seu entorno é uma preocupação para 31% dos mais novos e 29% dos mais velhos.

Esses dados confirmam a importância de direcionar ações específicas para os Anos Finais do Ensino Fundamental, revelando as nuances das percepções e necessidades dos adolescentes em diferentes ciclos. Além disso, embasam as escolhas no desenho da política pública e no plano de ação, promovendo uma educação mais inclusiva, integrada e alinhada ao desenvolvimento integral dos estudantes, com potencial para inspirar avanços em todo o país.

 


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ELAINE CRISTINA ALVES DE OLIVEIRA
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