Além da pressão alta: você sabia que existem outros tipos de hipertensão? Conheça a hipertensão portal

No mês em que se celebra o Dia Mundial da Hipertensão Arterial, em 17 de maio, vale lembrar que o termo “hipertensão” não se refere apenas à pressão alta tradicional. A hipertensão portal, ligada a doenças hepáticas, é uma condição silenciosa que pode trazer sérias complicações

Por MARIANA BEGO
11 Min

Além da pressão alta: você sabia que existem outros tipos de hipertensão? Conheça a hipertensão portal
IA

Quando se fala em “hipertensão”, a primeira imagem que vem à cabeça da maioria das pessoas é a da pressão alta, aquela medida no braço e considerada um dos principais fatores de risco para infarto e AVC no mundo todo. Não à toa, o tema ganha ainda mais visibilidade em campanhas de conscientização voltadas à saúde cardiovascular e à prevenção de doenças associadas à pressão arterial elevada.

Os números ajudam a entender a dimensão do problema. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1 em cada 3 adultos no mundo convive com hipertensão arterial — o que equivale a aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas, número que dobrou entre 1990 e 2019¹. No Brasil, o cenário é ainda mais preocupante: a prevalência entre adultos de 30 a 79 anos chega a 45%, contra uma média global de 33%, segundo a própria OMS — o que representa cerca de 50,7 milhões de brasileiros¹.  

Dados da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que a doença atinge aproximadamente 30% da população adulta brasileira, com tendência de alta nas últimas décadas: nas capitais, o índice saltou de 22,8% em 2006 para 28,1% em 2023².

E os parâmetros que definem o que é considerado “pressão normal” mudaram recentemente. Com a publicação da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial — 2025, elaborada em conjunto pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH) e Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), a pressão considerada ideal passou a ser inferior a 120/80 mmHg. Valores entre 120-139/80-89 mmHg, antes vistos como normais ou limítrofes, agora são classificados como pré-hipertensão — ou seja, o tradicional “12 por 8” passou a ser um sinal de alerta. O diagnóstico de hipertensão arterial se mantém a partir de 140/90 mmHg, com estratificação em três estágios conforme a gravidade³.

O que pouca gente sabe, no entanto, é que existem outros tipos de hipertensão que afetam diferentes partes do corpo e merecem igual atenção. Entre elas está a hipertensão portal, uma condição silenciosa associada a doenças hepáticas crônicas e que pode evoluir com complicações graves, como hemorragias digestivas, aumento do baço e ascite (acúmulo de líquido no abdômen). Apesar de menos conhecida que a hipertensão arterial, ela tem uma forte ligação com a cirrose hepática — em pacientes com doença hepática avançada (rigidez hepática acima de 25 kPa), a prevalência de hipertensão portal pode chegar a 66%, percentual que sobe para 90% quando há também redução de plaquetas⁴.

Apesar de receberem o mesmo “sobrenome”, essas condições têm causas, sintomas e tratamentos completamente distintos.
O que é a hipertensão portal

A hipertensão portal é caracterizada pelo aumento anormal da pressão sanguínea na veia porta, vaso de grande calibre responsável por transportar o sangue até o fígado. Quando essa pressão se eleva, todo o sistema circulatório hepático sofre as consequências, abrindo caminho para uma série de complicações que afetam não apenas o fígado, mas também outros órgãos do sistema digestivo⁵.

“A hipertensão portal é caracterizada pelo aumento anormal da pressão sanguínea na veia porta, que é o vaso de grande calibre responsável por transportar o sangue do sistema digestivo até o fígado. Quando essa pressão se eleva, todo o sistema circulatório hepático sofre as consequências”, explica o Dr. Decio Chinzon, gastroenterologista do Lavoisier, marca da Dasa.

As principais causas estão ligadas a doenças hepáticas e parasitárias
Entre os fatores que mais frequentemente desencadeiam o quadro, três se destacam:

  • Cirrose hepática, condição que pode ter múltiplas origens. “Ela é a causa mais comum, podendo ter início de infecções virais, consumo abusivo de bebidas alcoólicas, doença hepática gordurosa não alcoólica, doenças autoimunes, colestáticas ou genéticas. Conforme a lesão no fígado avança, ocorre fibrose e, em seguida, cirrose, alterando a circulação no sistema porta hepático e elevando a pressão dentro dos vasos”, detalha o Dr. Decio.
     
  • Esquistossomose, doença parasitária provocada pelo Schistosoma mansoni e fortemente associada à precariedade do saneamento básico, especialmente em regiões tropicais e subtropicais. Nesses casos, a hipertensão portal se desenvolve a partir da deposição dos ovos do parasita nos ramos intra-hepáticos da veia porta, resultando em fibrose periportal⁵.
     
  • Trombose da veia porta, terceira causa mais associada à condição, ocorre quando um coágulo bloqueia o vaso responsável por levar o sangue do intestino ao fígado. Inflamações intra-abdominais, trombofilias e a própria cirrose figuram entre os principais fatores de risco.
     

Sintomas surgem a partir das complicações, e não da doença em si

Um dos pontos que tornam a hipertensão portal especialmente desafiadora é o fato de ela passar despercebida por bastante tempo.

“Assim como acontece com a hipertensão arterial, a hipertensão portal também não apresenta sintomas próprios na maioria dos casos. Os sinais clínicos costumam aparecer apenas a partir das complicações que ela provoca, o que muitas vezes retarda o diagnóstico”, alerta o Dr. Decio.

Entre as manifestações mais comuns está o surgimento de novos vasos sanguíneos, conhecidos como vasos colaterais, em regiões específicas como a porção inferior do esôfago e a parte superior do estômago. Esse processo dá origem às varizes esofágicas e gástricas, que representam um risco real de ruptura e hemorragia digestiva alta, uma das complicações mais graves do quadro⁵.

Outras consequências incluem o desenvolvimento de vasos colaterais na parede abdominal e no reto, o aumento do risco de encefalopatia hepática (causada pela entrada direta de toxinas na corrente sanguínea) e o crescimento do baço, fenômeno conhecido como esplenomegalia. Esse aumento pode reduzir a quantidade de glóbulos vermelhos, resultando em anemia, brancos, deixando o organismo mais suscetível a infecções, e diminuir as plaquetas, elevando o risco de sangramentos. Há ainda o desenvolvimento de ascite, caracterizada pelo acúmulo de líquido no abdômen em razão do extravasamento provocado pela pressão aumentada nos vasos.

Diagnóstico combina avaliação clínica, exames laboratoriais e de imagem

A identificação da hipertensão portal exige uma investigação cuidadosa, geralmente conduzida a partir da combinação de diferentes recursos. Tudo costuma começar pela avaliação médica, que inclui anamnese e exame físico detalhados. A partir daí, o especialista pode solicitar exames laboratoriais — em especial, os de sangue — para avaliar a função hepática e identificar possíveis alterações. Exames de imagem, como ultrassonografia, tomografia e ressonância magnética também desempenham papel central no diagnóstico, assim como a endoscopia digestiva alta⁵.

“A endoscopia digestiva alta é considerada essencial para detectar a presença de varizes no esôfago e no estômago, que muitas vezes só são descobertas por meio desse exame. É um recurso fundamental para identificar precocemente o risco de hemorragias e definir a melhor conduta para cada paciente”, ressalta o Dr. Decio.

Tratamento depende da causa e da gravidade do quadro

Por se tratar de uma condição com múltiplas origens, o tratamento da hipertensão portal varia conforme a causa subjacente e os sintomas apresentados pelo paciente. Em geral, a abordagem envolve a combinação de diferentes estratégias.

O uso de medicamentos é uma das frentes mais utilizadas e busca reduzir a pressão nos vasos sanguíneos, diminuindo o risco de ruptura das varizes esofágicas. Já a terapia endoscópica é indicada principalmente para tratar essas varizes e prevenir hemorragias. Em situações mais complexas, podem ser necessárias intervenções endovasculares ou cirúrgicas, com o objetivo de desviar parte da circulação do fígado e reduzir a pressão no sistema porta. Nos casos mais graves, o transplante hepático se apresenta como única alternativa⁵.

“Isso significa que devemos estar sempre atentos à saúde do fígado, dos pulmões e de todos os sistemas que podem ser afetados por diferentes formas dessa condição”, finaliza o Dr. Decio.

Referências

1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Global Report on Hypertension: The race against a silent killer. Dados sobre prevalência mundial e brasileira de hipertensão arterial. Disponível em: https://www.forumccnts.org/post/relatorio-oms-hipertensao

2. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil — Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (2023). Dados de prevalência da hipertensão arterial nas capitais brasileiras. Ver também: Agência Brasil — “Dia Mundial da Hipertensão: condição atinge 30% dos adultos no Brasil”. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-05/dia-mundial-da-hipertensao-condicao-atinge-30-dos-adultos-no-brasil

3. Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH) e Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial — 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Disponível em: https://abccardiol.org/en/article/brazilian-guidelines-of-hypertension-2025/

4. Portal Afya / PEBMED. Diagnóstico e manejo de cirrose hepática. Dados sobre prevalência de hipertensão portal em pacientes com doença hepática avançada. Disponível em: https://portal.afya.com.br/gastroenterologia/diagnostico-e-manejo-de-cirrose-hepatica

5. Trevizoli, N. (Hepatologista). Hipertensão Portal: você conhece este quadro? Blog Nav Dasa. Conteúdo de referência para a matéria — informações sobre definição, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento da hipertensão portal. Disponível em: https://nav.dasa.com.br/blog/hipertensao-portal  


Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
DANILO BEGO FARIAS
[email protected]


Notícias Relacionadas »