Tempestades locais, impactos globais: eventos climáticos extremos já afetam o comércio exterior e desafiam cadeias logísticas

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As imagens da tempestade que atingiu Ribeirão Preto na última semana ganharam repercussão nacional ao mostrar ruas alagadas, queda de árvores, interrupção no fornecimento de energia elétrica e diversos prejuízos para empresas e moradores. Embora, à primeira vista, os danos pareçam restritos ao município, especialista em comércio exterior alerta que eventos climáticos extremos têm potencial para provocar reflexos muito maiores, afetando cadeias produtivas, logística internacional e até o abastecimento de mercados em diferentes países.

 

Esse fenômeno já vem sendo observado em diversas partes do mundo. Há cerca de duas semanas, um forte tufão atingiu importantes regiões portuárias da China, provocando paralisações temporárias de terminais, atrasos na movimentação de cargas e impactos nas rotas marítimas internacionais, especialmente nos portos de Xangai e Ningbo, dois dos maiores hubs logísticos do planeta. Especialistas do setor apontaram que os atrasos se propagariam por dias ou até semanas em diferentes cadeias globais de suprimentos.

 

No Brasil, situações semelhantes também ocorreram recentemente. No início de julho, o Porto de Santos teve sua navegação interrompida diversas vezes em razão de um forte nevoeiro, afetando a atracação e saída de embarcações e gerando prejuízos para operadores logísticos e exportadores.

 

Para Cristiane Fais, coordenadora do Núcleo de Comércio Exterior do CIESP nas regiões de Ribeirão Preto e Franca, esses episódios demonstram que os impactos das mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental para se tornarem uma variável estratégica da economia global.

 

"Hoje, um evento climático extremo não afeta apenas a cidade ou o país onde ele ocorre. Vivemos em cadeias logísticas totalmente integradas. Se um porto para na Ásia, uma rodovia é interditada no Brasil ou uma empresa interrompe suas operações por falta de energia, toda a programação logística pode ser comprometida. Os reflexos aparecem em atrasos, aumento dos custos, quebra de contratos e até desabastecimento de matérias-primas."

 

Segundo Cristiane, casos recentes demonstram que os efeitos desses eventos climáticos já são percebidos na rotina das empresas brasileiras.

 

"Tivemos clientes diretamente impactados pelo tufão na Ásia, que enfrentaram atrasos em operações de importação e exportação devido à paralisação da logística naquela região. Da mesma forma, após a tempestade em Ribeirão Preto, empresas locais também tiveram seus processos prejudicados pela interrupção de energia elétrica, falhas de internet, danos em estoques e armazéns e dificuldades para transportar cargas até os portos dentro dos prazos previstos."

 

Ela explica que, quando uma carga deixa de chegar ao porto dentro da janela de embarque, as consequências podem ser significativas.

 

"Perder uma janela de embarque significa muitas vezes remarcar navios, renegociar contratos internacionais, assumir custos extras de armazenagem, transporte e até enfrentar multas contratuais. Em alguns segmentos, isso representa perda de competitividade e atraso na entrega ao cliente final."

 

Na avaliação da especialista, a frequência crescente de eventos climáticos extremos exige uma nova postura das empresas que atuam no comércio exterior.

 

"A gestão de riscos climáticos passou a fazer parte do planejamento logístico. Não basta mais pensar apenas na operação de transporte. É preciso investir em planos de contingência, fornecedores alternativos, gestão de estoques, seguros, tecnologia e monitoramento constante das condições climáticas que possam afetar rotas nacionais e internacionais."

 

Cristiane destaca que o impacto econômico vai muito além das empresas diretamente atingidas.

 

"Quando uma indústria interrompe a produção por falta de energia, um porto suspende operações ou uma rodovia fica interditada, toda a cadeia sente os efeitos. O fornecedor atrasa, o exportador perde prazo, o importador deixa de receber insumos e, no fim, esse custo acaba chegando ao consumidor. Os eventos climáticos já fazem parte da economia mundial e precisam ser tratados como um fator estratégico para a competitividade."

 

Para a especialista, a tendência é que episódios como os registrados recentemente em Ribeirão Preto, na China e em outras regiões do mundo se tornem cada vez mais frequentes, reforçando a necessidade de cadeias logísticas mais resilientes.

 

"A logística internacional sempre conviveu com riscos geopolíticos e econômicos. Agora, os eventos climáticos passaram a ocupar o mesmo nível de importância. As empresas que conseguirem se preparar melhor para esse novo cenário terão mais capacidade de manter suas operações, reduzir prejuízos e preservar sua competitividade no mercado global."