Balança comercial positiva expõe força do interior paulista e do Centro-Sul na potência exportadora brasileira

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Cristiane Fais é CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional - divulgação

Os números mais recentes do comércio exterior brasileiro reforçam uma característica que muitas vezes passa despercebida quando se olha apenas para os resultados nacionais: uma parcela importante da força exportadora do país está diretamente ligada ao interior paulista e à força do cinturão produtivo do Centro-Sul. Dados consolidados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que o Brasil exportou US$ 250,86 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, alta de 10,3% em relação ao mesmo período de 2025. O saldo da balança comercial chegou a US$ 55,32 bilhões, crescimento de 28,2%. Somente em agosto, as exportações somaram US$ 33,16 bilhões, com superávit de US$ 7,39 bilhões.

 

Para Cristiane Fais, CEO da Accrom e coordenadora do Núcleo de Comércio Exterior do CIESP, os números precisam ser analisados também a partir dos territórios que produzem, industrializam e movimentam as mercadorias que chegam aos mercados internacionais. Nesse mapa, o interior de São Paulo e os estados que compõem o macrobloco do Centro-Sul ocupam uma posição estratégica, especialmente pela força do complexo sucroenergético.

 

“Quando olhamos para a balança comercial brasileira, é importante entender que o resultado não acontece apenas nos portos ou nos grandes centros financeiros. Existe uma cadeia produtiva inteira por trás de cada dólar exportado, e uma parte muito significativa dela está no interior paulista e se estende por todo o Centro-Sul brasileiro. É nessa grande região que concentramos produção agrícola de ponta, usinas, indústria de máquinas, fornecedores de tecnologia, armazenagem e uma extensa rede de serviços que conecta o campo ao mercado internacional”, afirma Cristiane.

 

São Paulo lidera produção no coração do Centro-Sul

 

O setor sucroenergético é um dos exemplos mais claros dessa integração regional. Na safra 2025/26, a região Centro-Sul respondeu por mais de 616 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, tendo o estado de São Paulo como seu grande motor produtivo, responsável por aproximadamente 50,5% do volume nacional, com 347,9 milhões de toneladas, segundo dados da Conab.

 

A relevância da região também se reflete diretamente na pauta exportadora. Segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA), o complexo sucroalcooleiro representou 59,4% das exportações do agronegócio paulista em 2025, atuando como o principal vetor das vendas externas do setor na região.

 

Na safra 2026/27, a liderança do bloco permanece consolidada. A estimativa da Conab aponta para uma produção nacional de 705,2 milhões de toneladas de cana (alta de 4,7%), impulsionada pelo desempenho do Centro-Sul. O estado de São Paulo projeta colher 362,8 milhões de toneladas, um crescimento de 4,3% em relação ao ciclo anterior.

 

“O dado mais interessante é que estamos falando de uma cadeia transregional que não termina na propriedade rural. A cana movimenta uma estrutura industrial, energética, tecnológica e logística gigantesca que integra São Paulo a estados vizinhos do Centro-Sul. Quando uma usina exporta açúcar ou participa de uma cadeia de biocombustíveis, o impacto econômico se espalha por transportadoras, armazéns, fornecedores de equipamentos, oficinas e empresas de tecnologia de toda a região”, explica Cristiane.

 

Açúcar continua estratégico, mesmo com cenário mais desafiador

 

A perspectiva para a safra 2026/27 mostra, porém, que crescimento de produção de cana não significa necessariamente aumento proporcional da produção de açúcar.

 

A Conab estima 42,9 milhões de toneladas de açúcar na atual safra, redução de 2,9% em relação às 44,2 milhões de toneladas do ciclo anterior. Ao mesmo tempo, a produção de etanol de cana deve crescer 9,7%, para aproximadamente 30 bilhões de litros, indicando uma safra com maior direcionamento para o biocombustível.

 

Para Cristiane, essa mudança reforça a necessidade de olhar o setor sucroenergético como uma cadeia dinâmica, e não apenas como uma atividade exportadora de açúcar.

 

“O mercado internacional não é estático. Preços, câmbio, demanda, estoques globais, políticas energéticas e decisões de cada país interferem diretamente na rentabilidade das nossas exportações. Por isso, a competitividade do setor sucroenergético brasileiro está justamente na capacidade de combinar produção, tecnologia, energia, diversificação, inteligência comercial, logística terrestre ou ferroviária e estratégia portuária.”

 

O cenário também mostra que o Brasil segue ocupando uma posição central no mercado mundial de açúcar. Na safra 2026/27, a própria Conab mantém o país como principal produtor global, enquanto a região Sudeste e o Centro-Sul continuam respondendo por mais de 70% da produção nacional do adoçante, com São Paulo mantendo participação superior à metade do total do país.

 

O produto nasce no interior, mas precisa vencer a “última milha” até o mundo

 

É justamente nesse ponto que a logística ganha protagonismo para escoar a produção paulista e dos estados vizinhos.

 

O Porto de Santos é a principal porta de saída da produção do Centro-Sul para o exterior e tem conexão direta com as cadeias produtivas do interior. Em 2025, Santos movimentou 186,4 milhões de toneladas, recorde histórico, sendo responsável por 29,6% da corrente comercial brasileira com o exterior em valor. O açúcar está entre as principais cargas movimentadas pelo complexo portuário.

 

No primeiro semestre de 2026, Santos movimentou 92,8 milhões de toneladas, crescimento de 5,05% sobre o mesmo período de 2025, mantendo sua posição como principal complexo portuário da América Latina.

 

Na avaliação de Cristiane, a infraestrutura logística precisa ser entendida como parte da própria estratégia de comércio exterior.

 

“Não adianta termos uma produção competitiva dentro da porteira e uma indústria eficiente se o produto perde competitividade no caminho até o comprador internacional. Frete, disponibilidade de caminhões, ferrovias, armazenagem, terminais, capacidade portuária, tempo de espera e previsibilidade logística entram diretamente na formação do preço final.”

 

Ela destaca que essa discussão é especialmente importante para polos produtivos do interior paulista e do Centro-Sul que estão distantes do litoral, mas integrados ao sistema exportador por rodovias e ferrovias.

 

“Ribeirão Preto, Sertãozinho e demais polos do interior e do Centro-Sul não precisam estar à beira-mar para serem protagonistas do comércio exterior. A nossa importância está justamente na capacidade de produzir, transformar e conectar mercadorias aos grandes corredores logísticos. O desafio agora é garantir que essa infraestrutura acompanhe o crescimento da produção e preserve a competitividade brasileira.”

 

O que a balança comercial revela sobre o interior e as regiões produtoras

 

Os dados do MDIC mostram ainda que a força exportadora brasileira está distribuída entre diferentes setores. Entre janeiro e agosto, a agropecuária exportou US$ 57,85 bilhões, alta de 9,5%; a indústria extrativa alcançou US$ 62,14 bilhões, crescimento de 19,6%; e a indústria de transformação chegou a US$ 129,41 bilhões, avanço de 6,6%.

 

Para Cristiane, a leitura desses números deve ir além do resultado financeiro da balança.

 

“Cada superávit comercial carrega uma história de produção e de logística. No caso do sucroenergético, essa história passa fortemente pelo interior paulista e pelas usinas espalhadas pelo Centro-Sul. É uma cadeia que reúne agro, indústria, energia, tecnologia, comércio exterior e transporte. Por isso, discutir exportações também é discutir desenvolvimento regional.”

 

Segundo ela, o próximo passo é fazer com que essa potência exportadora seja acompanhada por investimentos contínuos em infraestrutura e por uma estratégia de internacionalização cada vez mais sofisticada.

 

“O Brasil já demonstrou que tem capacidade de produzir em escala e competir internacionalmente. O que precisamos é transformar essa vantagem produtiva em vantagem logística e comercial permanente. Para o interior paulista e os polos produtivos do Centro-Sul, isso significa fortalecer os corredores de exportação, ampliar alternativas de transporte, melhorar a previsibilidade e, principalmente, agregar cada vez mais valor ao que produzimos.”

 

A combinação entre uma balança comercial robusta, uma safra de cana em recuperação e a liderança do Centro-Sul no setor sucroenergético coloca a região em uma posição estratégica para a próxima etapa do comércio exterior brasileiro: não apenas produzir para o mundo, mas tornar cada vez mais eficiente o caminho entre a produção regional e os mercados globais.