A ponte entre Brasil e Catalunha para a indústria do futuro

Por Josep Buades*

Por FERNANDA MONTANHA
6 Min

Acció

A neoindustrialização brasileira não significa reconstruir a indústria do passado, mas desenvolver uma base produtiva mais inovadora, digital, sustentável e integrada às cadeias globais.
A indústria brasileira já apresenta sinais de avanço. No primeiro trimestre de 2026, a atividade econômica no país avançou mais 1% em relação ao trimestre anterior, segundo o Estudo especial do BNDES 74. O desafio, agora, é transformar esse movimento em ganhos duradouros de produtividade, inovação e competitividade.
Para isso, o Brasil não precisa escolher entre desenvolver a sua própria capacidade industrial e ampliar sua conexão com o mundo. Ao contrário, a neoindustrialização pode avançar justamente pela combinação entre os ativos que o país já possui e competências complementares de ecossistemas internacionais.
É nesse contexto que Barcelona-Catalunha pode se tornar um parceiro estratégico. A região é um dos principais polos tecnológicos da Europa e reúne empresas, universidades, centros de pesquisa e startups com forte atuação em tecnologias aplicadas à transformação industrial. Em 2025, o ecossistema catalão de tecnologia e economia digital chegou a 28.122 empresas, crescimento de 13% em relação ao ano anterior. Além disso, alcançou o recorde de 2.403 startups, 5,2% mais que em 2024. Mais relevante que o tamanho, porém, é a especialização: 57,5% dessas startups atuam com tecnologias ligadas à indústria 4.0, como inteligência artificial, big data, automação, computação em nuvem, internet das coisas e sensores.
A intensidade de inovação reforça esse potencial. Em 2025, 89% das startups catalãs investiram em pesquisa e desenvolvimento, e 58% destinaram mais de um quarto de suas receitas a essa área. Esses números são particularmente relevantes para uma estratégia de cooperação voltada ao desenvolvimento conjunto de tecnologias e à sua aplicação na indústria.
A oportunidade, porém, não está apenas na capacidade tecnológica catalã, mas sim naquilo que as duas regiões podem combinar. O Brasil reúne escala, diversidade produtiva, capacidade científica, recursos naturais, um grande mercado consumidor e condições favoráveis para avançar na transição para uma economia de baixo carbono. Barcelona-Catalunha, por sua vez, agrega densidade tecnológica, universidades, centros de pesquisa, startups e experiência na aproximação entre conhecimento, inovação e negócios.
Não se trata, portanto, de uma relação em que um lado fornece tecnologia e o outro simplesmente a importa. O potencial está em criar mecanismos para que empresas, pesquisadores e empreendedores dos dois lados desenvolvam soluções conjuntamente, testem aplicações e levem essas tecnologias à escala. É essa complementaridade que pode transformar uma aproximação institucional em resultados concretos para a indústria.
O setor de energia é um exemplo disso. Dados da Empresa de Pesquisa Energética apontam que o consumo final energético no Brasil cresceu 1,1% em 2025, comparado com o ano anterior. A matriz energética da indústria brasileira apresentou também uma renovabilidade de 65,1%, sendo favorecida principalmente por eletricidade, bagaço de cana, licor preto, entre outras fontes. O consumo final de energia nesse setor cresceu 1,0% em relação a 2024. Essa característica cria uma oportunidade importante, onde a combinação entre tecnologias de eficiência energética, eletrificação, armazenamento e rastreabilidade, pode ajudar a reduzir a pegada de carbono da produção brasileira e ampliar a sua competitividade em mercados que valorizam produtos de menor emissão.
A sustentabilidade é outro campo em que essa aproximação pode gerar resultados. Pesquisa da Firjan mostra que 96,1% das empresas adotam critérios ESG, um aumento de 10 p.p. (pontos percentuais) ao compararmos com os dados da pesquisa anterior. O avanço mostra que a agenda já faz parte da estratégia empresarial e o próximo passo é transformar esse compromisso em práticas efetivas ao longo das cadeias produtivas, conectando sustentabilidade, inovação e competitividade.
Essa agenda também dialoga diretamente com a política industrial brasileira. A Nova Indústria Brasil prioriza transformação digital, inovação, descarbonização e maior inserção internacional. No campo do financiamento, o Plano Mais Produção reúne instrumentos destinados a apoiar essa agenda e estabelece meta conjunta de R$ 751,3 bilhões. Na digitalização, o objetivo oficial é alcançar 25% das empresas industriais em 2026 e 50% em 2033.
É nesse cenário que uma parceria mais estruturada com a Catalunha pode ganhar relevância. Mais do que ampliar o intercâmbio tecnológico, essa conexão pode aproximar pesquisa e aplicação, criando oportunidades para o desenvolvimento de produtos, processos e soluções capazes de ganhar escala.
A cooperação também pode assumir formas concretas como, por exemplo, projetos conjuntos de pesquisa e desenvolvimento, transferência tecnológica, formação de profissionais, desenvolvimento de plantas-piloto e inserção de empresas em cadeias internacionais. O objetivo não deve ser simplesmente adquirir tecnologia, mas criar as condições para que inovação chegue ao chão de fábrica, aumente a produtividade e se transforme em competitividade.
Esse é, afinal, um dos grandes desafios da neoindustrialização brasileira. Não basta produzir conhecimento, atrair investimentos ou incorporar novas tecnologias, mas transformar esses ativos em capacidade produtiva, escala e presença internacional.
O avanço da indústria brasileira não depende da importação de um modelo pronto, mas da capacidade de combinar os seus próprios ativos com competências complementares. Por isso, o maior valor da parceria entre Brasil e Barcelona-Catalunha não estará na tecnologia que atravessa o oceano, mas naquilo que os dois lados forem capazes de criar juntos.
Josep Maria Buades é diretor do escritório da ACCIÓ — Catalonia Trade & Investment no Brasil.  

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