Transportadoras ampliam gastos com segurança e veem investimentos pressionados pelo roubo de cargas

Apesar da queda das ocorrências, crime ainda gera perdas próximas de R$ 1 bilhão e exige recursos permanentes para seguros, rastreamento, monitoramento e prevenção

Por BRUNO BENITE
8 Min

Transportadoras ampliam gastos com segurança e veem investimentos pressionados pelo roubo de cargas
Divulgação- Banco de imagens Canva

Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, os registros de roubo de cargas vêm apresentando redução no Brasil. Em 2025, o país teve 8.570 ocorrências, uma diminuição de 16,7% em relação aos 10.288 casos de 2024. A tendência continuou nos primeiros meses de 2026: entre janeiro e maio, foram contabilizados 3.397 roubos de carga, ante 3.721 no mesmo intervalo do ano anterior, uma redução de 8,71%.

A queda ocorre dentro de um movimento mais longo. Em 2020, o Brasil havia registrado 13.283 ocorrências de roubo de carga. Na comparação com os 8.570 casos de 2025, a redução acumulada chega a aproximadamente 35,5%. Os números, porém, não significam que o impacto econômico do crime tenha diminuído na mesma proporção.

Apesar da melhora nos indicadores, o impacto financeiro continua sendo um desafio para o Transporte Rodoviário de Cargas. Em 2025, levantamento da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) estimou prejuízo direto de aproximadamente R$900 milhões com cargas roubadas. Considerados os efeitos indiretos, como aumento de despesas operacionais, seguros, interrupções logísticas e investimentos adicionais em segurança, o impacto pode superar R$1 bilhão.

A pressão sobre as empresas aparece também na estrutura de custos. Em debate realizado na Câmara dos Deputados sobre segurança no transporte, a NTC&Logística informou que aproximadamente 14% da receita das transportadoras pode ser direcionada a medidas de prevenção ao roubo, incluindo rastreamento, bloqueadores, blindagens, escolta e seguros. O dado ajuda a dimensionar como uma atividade que deveria estar concentrada no transporte precisa reservar parte relevante de seus recursos para enfrentar a criminalidade.

Além disso, o problema permanece altamente concentrado. Em 2025, a Região Sudeste respondeu por 86,8% dos roubos de carga registrados no país. Rio de Janeiro e São Paulo, juntos, concentraram mais de 80% das ocorrências, reforçando a exposição de empresas que operam nos principais corredores logísticos e centros consumidores brasileiros.

Em 2026, alguns indicadores passaram a mostrar reduções mais expressivas em São Paulo. Somente em janeiro, o Estado registrou queda de 27,4% nos roubos de carga em relação ao mesmo mês de 2025. No interior paulista, no primeiro bimestre, as ocorrências passaram de 136 para 75, retração de 44,8%. Na capital, maio registrou redução de 35,5% na comparação anual. O governo paulista atribui parte dessa trajetória à integração entre as forças de segurança, ao reforço das ações de inteligência, investigação e policiamento e ao uso de ferramentas de monitoramento.

Para José Alberto Panzan, diretor da Anacirema Transportes, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transportes e Cargas de Campinas e Região (SINDICAMP) e diretor da Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP), os números reforçam a necessidade de manter uma atuação preventiva dentro das transportadoras, considerando que o impacto de uma ocorrência pode comprometer diferentes áreas da operação.

“A queda nos registros de roubos é positiva, mas não significa que podemos diminuir a atenção. Dependendo da carga e da operação, uma única ocorrência pode gerar um prejuízo muito expressivo para a empresa. Por isso, a segurança precisa ser tratada como parte permanente da gestão, e não apenas como uma resposta quando o problema acontece”, afirma o diretor.

Os efeitos também vão além do valor da mercadoria roubada. Seguro, rastreamento, monitoramento, gerenciamento de risco, escolta em determinadas operações, alteração de rotas e restrições de horários passam a integrar a estrutura de custos das empresas. Em áreas consideradas mais críticas, essas medidas podem ainda aumentar distâncias percorridas, tempo de viagem e complexidade operacional.

Esse cenário cria uma disputa interna por recursos. Valores destinados à proteção da operação deixam de estar disponíveis, naquele momento, para outras frentes como renovação de frota, expansão da empresa, modernização de instalações, contratação de profissionais ou adoção de novas tecnologias. O impacto varia conforme o perfil da transportadora, a carga transportada, a rota e as exigências de gerenciamento de risco de cada operação.

“Esse cenário mostra que a segurança deixou de ser apenas uma preocupação operacional e passou a ocupar uma parte importante da gestão financeira das transportadoras. Quanto maior a necessidade de proteção, mais recursos precisam ser direcionados para prevenção, tecnologia e controle, o que reduz a capacidade de investir em expansão, renovação de frota e outras melhorias. Por isso, enfrentar o roubo de cargas também depende de uma atuação pública mais eficiente, capaz de reduzir a exposição das empresas e criar condições mais seguras para o desenvolvimento do setor”, explica Panzan.

A própria dinâmica dos crimes também exige atualização permanente das estratégias. Segundo o levantamento da NTC&Logística, cargas de maior liquidez, como alimentos, combustíveis, medicamentos e eletrônicos, permanecem entre os principais alvos. As ações incluem interceptações de veículos em movimento, abordagens durante entregas e crimes praticados em áreas urbanas e corredores logísticos.

Com o avanço das ferramentas de monitoramento, a inteligência digital passou a ocupar um espaço cada vez maior dentro do gerenciamento de riscos. Rastreamento em tempo real, acompanhamento de rotas, definição de pontos seguros de parada e análise das regiões de maior exposição ajudam a ampliar a visibilidade sobre a operação e permitem respostas mais rápidas diante de situações fora do planejamento.

A tecnologia também passou a apoiar o trabalho das forças de segurança. Em janeiro deste ano, por exemplo, uma operação da Polícia Civil de São Paulo utilizou informações fornecidas por uma empresa de rastreamento para localizar uma carga roubada em Guarulhos, resultando na recuperação das mercadorias e na prisão de oito suspeitos. O episódio mostra como a integração entre monitoramento privado e investigação policial pode contribuir para a resposta às ocorrências.

“A tecnologia trouxe uma capacidade muito maior de acompanhamento, mas ela sozinha não resolve o problema. É preciso ter processos definidos, equipes treinadas e uma comunicação clara com o motorista. Dessa forma, quando essas informações estão integradas, conseguimos tomar decisões com mais rapidez e reduzir a exposição da operação aos riscos”, destaca José Alberto.

De acordo com o diretor, na Anacirema, a segurança é trabalhada desde o planejamento de cada transporte, com análise das características da operação, orientação aos motoristas e acompanhamento durante o percurso. A empresa também utiliza ferramentas de rastreamento e monitoramento como apoio para identificar situações de risco e manter maior controle sobre as viagens.

“Buscamos trabalhar de forma preventiva, entendendo os riscos antes de o caminhão sair e acompanhando a operação durante todo o percurso. O motorista precisa saber quais cuidados adotar, quais rotas seguir e como agir diante de uma situação fora do previsto. Esse acompanhamento precisa ser constante, porque os riscos mudam e a operação também muda. Para nós, segurança é um trabalho contínuo e que começa sempre pela proteção das pessoas”, finaliza.


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RODRIGO BERNARDINO DA SILVA
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