Ribeirão Preto entra na rota que pode definir retomada das exportações brasileiras de mel para a União Europeia
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Ribeirão Preto entrou na rota de uma avaliação internacional que pode ajudar a definir o futuro das exportações brasileiras de mel para a União Europeia. Uma missão de autoridades sanitárias europeias esteve no Brasil entre 24 de agosto e 4 de setembro para avaliar os controles adotados nas cadeias produtivas de aves e mel, incluindo visitas a estabelecimentos produtivos e órgãos oficiais.
A auditoria ganhou ainda mais importância diante das restrições impostas pela União Europeia, que começaram a ser implementadas em 3 de setembro e atingiram produtos brasileiros de origem animal. A decisão europeia está relacionada às exigências previstas no Regulamento (UE) 2019/6, especialmente quanto às garantias sobre controle do uso de antimicrobianos.
Na avaliação de Cristiane Fais, CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional e coordenadora do Núcleo de Comércio Exterior do CIESP na região de Ribeirão Preto e Franca, o episódio mostra como as exigências sanitárias e regulatórias passaram a ocupar posição cada vez mais estratégica no comércio internacional.
“Existe uma diferença importante que precisa ficar clara. Não estamos falando de uma restrição provocada pela constatação de que o mel brasileiro é de má qualidade ou por algum problema específico de contaminação. A discussão está relacionada às garantias e aos controles exigidos pelo mercado europeu. E isso muda completamente a leitura do problema: trata-se de demonstrar que toda a cadeia possui rastreabilidade, controle e conformidade suficientes para atender às regras daquele mercado”, explica Cristiane.
Auditoria brasileira recebeu sinalização positiva
O resultado da missão trouxe uma sinalização importante para o setor. Em 4 de setembro, o Ministério da Agricultura e Pecuária informou oficialmente que os controles sanitários e procedimentos adotados pelo Brasil foram considerados satisfatórios pelas equipes europeias nas cadeias de aves e mel. O resultado representa um avanço no processo para que o país volte à lista de fornecedores autorizados da União Europeia. A decisão formal, porém, ainda depende das próximas etapas junto ao bloco.
Durante a missão, os auditores tiveram acesso à estrutura e ao funcionamento do sistema brasileiro de defesa agropecuária, com visitas a estabelecimentos produtivos e órgãos oficiais. Desde a decisão europeia, tomada em maio, o Brasil também apresentou documentação e informações adicionais para demonstrar o atendimento aos requisitos aplicáveis.
“Essa avaliação positiva é extremamente relevante porque mostra que o Brasil tem condições de apresentar ao mercado internacional aquilo que hoje é fundamental em qualquer relação comercial: confiança. Não basta afirmarmos que temos um produto de qualidade. Precisamos comprovar como produzimos, quais controles utilizamos, de onde vem esse produto e como conseguimos rastrear cada etapa da cadeia”, afirma Cristiane.
Para a especialista, a passagem da missão pela região também ajuda a colocar Ribeirão Preto no centro de uma discussão que ultrapassa os limites do setor apícola.
“Quando auditores internacionais vêm até a nossa região para verificar controles relacionados a um produto que será comercializado do outro lado do mundo, percebemos o quanto o interior paulista está conectado ao comércio exterior. Ribeirão Preto e sua região fazem parte dessa engrenagem global”, destaca.
Mercado de US$ 116 milhões
A importância econômica do setor ajuda a dimensionar o que está em jogo. O Brasil exportou 34,5 mil toneladas de mel natural em 2025, movimentando aproximadamente US$ 116 milhões.
Os Estados Unidos permanecem como o principal destino do produto brasileiro. Essa concentração, entretanto, reforça a importância de ampliar mercados compradores, principalmente diante de um ambiente internacional sujeito a mudanças tarifárias e regulatórias.
A União Europeia aparece justamente como uma das alternativas relevantes nessa estratégia. Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações brasileiras de mel para o bloco chegaram a aproximadamente US$ 12,3 milhões, segundo dados apresentados por Cristiane Fais.
“Quando temos uma parcela muito grande das exportações concentrada em um único destino, qualquer mudança tarifária, regulatória ou política naquele mercado pode provocar impacto sobre toda a cadeia. Por isso, diversificar mercados não é simplesmente vender mais. É uma estratégia de redução de risco para quem exporta”, analisa.
O tema ganhou ainda mais importância neste ano diante das mudanças nas condições de acesso ao mercado norte-americano. Na visão de Cristiane, situações como essa demonstram por que empresas e setores exportadores precisam trabalhar permanentemente na abertura e manutenção de diferentes destinos.
“Não podemos começar a procurar outro mercado somente quando uma porta se fecha. Comércio exterior exige planejamento. Precisamos construir relacionamentos, conhecer exigências, conquistar certificações e manter diferentes mercados abertos enquanto o cenário é favorável”, ressalta.
Ribeirão Preto conectada a mais de 30 países
A relação da região com a cadeia do mel também vai além da produção. Ribeirão Preto abriga empresa que atua internacionalmente com mel e derivados, comercializando seus produtos para mais de 30 países.
Para Cristiane, esse tipo de presença internacional demonstra que uma empresa localizada no interior paulista pode participar diretamente de cadeias globais altamente exigentes.
“Às vezes imaginamos o comércio exterior como algo restrito aos portos ou às grandes capitais. Mas uma empresa instalada em Ribeirão Preto pode comprar de produtores de diferentes regiões, processar, controlar, preparar e enviar um produto para dezenas de países. Isso gera renda, movimenta logística, cria empregos e conecta uma cadeia inteira ao mercado internacional”, explica.
No comércio exterior, qualidade precisa ser comprovada
A situação envolvendo o mel brasileiro também deixa uma lição que, segundo Cristiane, vale para praticamente qualquer setor exportador.
O mercado internacional está cada vez mais exigente em relação à rastreabilidade, segurança, sustentabilidade, documentação e conformidade. Ter preço competitivo e um produto de qualidade continua sendo fundamental, mas já não é suficiente para garantir acesso aos principais mercados.
“Quando falamos em exportação, não é apenas o preço que vale. Existe algo cada vez mais valioso no comércio internacional: a confiança que conseguimos entregar junto com o produto”, afirma.
Essa confiança, segundo ela, é construída por meio de processos documentados e capacidade de demonstrar ao comprador e às autoridades do país de destino que as exigências estão sendo cumpridas.
“Rastreabilidade, segurança e conformidade deixaram de ser detalhes burocráticos. Elas fazem parte do produto que estamos exportando. O comprador internacional quer saber não apenas se aquilo que está recebendo é bom, mas se conseguimos comprovar que toda a cadeia atende aos padrões estabelecidos.”
O resultado positivo da auditoria representa um passo importante, mas o processo ainda não terminou. O próprio Ministério da Agricultura informou que permanece em articulação com as autoridades europeias e com os setores produtivos para acompanhar as próximas etapas necessárias à reinclusão brasileira na lista de países autorizados a fornecer aves e mel ao bloco.
Para Cristiane, o episódio sintetiza uma das principais mudanças enfrentadas atualmente pelas empresas que desejam atuar globalmente.
“Planejar também faz parte do futuro do nosso comércio exterior. Nesse caso, comprovar o quanto somos bons é parte fundamental para manter abertas as portas do mundo para os produtos brasileiros. Temos capacidade produtiva e qualidade. O desafio é demonstrar isso de maneira permanente, organizada e confiável para cada mercado que queremos conquistar”, conclui.