As instabilidades geopolíticas e as oscilações do mercado internacional de petróleo continuam trazendo incertezas para o Transporte Rodoviário de Cargas brasileiro. Diante desse cenário, o Governo Federal adotou medidas de subvenção ao diesel, buscando conter os impactos da alta internacional do combustível sobre o mercado interno e assegurar o abastecimento.
No fim de setembro, foi mantida a subvenção de R$2,12 por litro. Já em 9 de outubro, o governo anunciou um benefício adicional de R$1,40 por litro destinado aos importadores de diesel rodoviário, somando-se ao mecanismo existente.
Embora possam amenizar as pressões sobre os preços, essas medidas têm caráter temporário e não representam, necessariamente, uma redução no valor efetivamente pago pelas transportadoras. Para José Alberto Panzan, diretor da Anacirema Transportes, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transportes e Cargas de Campinas e Região (SINDICAMP) e diretor da Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP), a distinção é fundamental para compreender os efeitos da política sobre o setor.
“Precisamos separar duas situações. Uma coisa é o diesel ficar mais barato para quem abastece. Outra é o governo subsidiar parte do seu preço para evitar que os aumentos internacionais sejam integralmente repassados ao mercado. Até que tenhamos uma redução efetiva no abastecimento, não podemos afirmar que os custos das transportadoras diminuíram, o que existe é uma tentativa de conter uma pressão que poderia ser ainda maior”, explica.
O diesel está entre os principais componentes dos custos do transporte rodoviário de cargas, podendo representar cerca de 35% do custo do frete e alcançar 50% em determinadas operações, conforme referências da NTC&Logística. Por isso, qualquer alteração relevante no combustível afeta diretamente a formação dos preços e a rentabilidade das empresas, entretanto, a principal preocupação não está apenas no comportamento atual dos preços, mas no que poderá acontecer quando os incentivos forem retirados.
“Reconheço que estamos vivendo um momento de instabilidade internacional e que medidas emergenciais podem ser necessárias. Minha preocupação é com o que vem depois. Se o governo está absorvendo temporariamente parte dessa pressão, precisamos saber como será feita a transição quando a subvenção terminar. Caso o petróleo e o câmbio continuem pressionados, poderemos enfrentar uma elevação expressiva do diesel, com consequências sérias para o transporte rodoviário de cargas”, alerta Panzan.
A Medida Provisória nº 1.391/2026 prevê a concessão temporária da subvenção, com possibilidade de prorrogação, alteração ou interrupção, conforme as regras estabelecidas e as condições de mercado. Essa flexibilidade permite ao governo responder a situações emergenciais, mas também exige atenção redobrada das empresas na elaboração de seus orçamentos e contratos.
Na avaliação do executivo, a preocupação deve ir além dos efeitos imediatos da medida. O transporte rodoviário trabalha com contratos de médio e longo prazo, investimentos elevados em veículos e equipamentos, compromissos financeiros e uma estrutura de custos que não acompanha, necessariamente, as oscilações do diesel.
“Quem administra uma transportadora precisa tomar decisões olhando para os próximos meses e anos. Temos contratos a cumprir, funcionários, fornecedores, financiamentos e investimentos que dependem de planejamento. Não podemos assumir que uma condição criada por uma subvenção temporária será mantida no futuro, precisamos trabalhar com a realidade dos custos e, principalmente, com os riscos envolvidos”, afirma.
Outro ponto sensível é a possível repercussão da subvenção sobre as tarifas de transporte. Para Panzan, não há fundamento econômico para que a simples existência do benefício seja utilizada como justificativa automática para reduzir os valores dos fretes.
“Se o diesel não ficou efetivamente mais barato para a transportadora, não existe redução de custo a ser repassada. Mesmo quando houver uma queda comprovada, precisamos avaliar sua consistência e duração, não seria razoável reduzir uma tarifa com base em um benefício temporário e depois enfrentar dificuldades para recompor o frete quando o combustível voltar a subir. O equilíbrio precisa funcionar nos dois sentidos”, argumenta.
O executivo ressalta que essa preocupação não representa uma resistência à revisão dos custos ou à negociação comercial. Pelo contrário, contratos equilibrados e relações transparentes entre transportadoras e embarcadores são fundamentais para a continuidade das operações.
“Os embarcadores também precisam de previsibilidade e competitividade. Uma relação comercial saudável depende de critérios claros, que considerem tanto as reduções quanto os aumentos dos custos. O que precisamos evitar é que uma situação temporária comprometa o equilíbrio econômico de contratos que precisam ser sustentáveis para todos os envolvidos”, observa.
Além dos efeitos sobre as tarifas, as incertezas também interferem nas decisões de renovação de frota, ampliação de operações e adoção de novas tecnologias. Em um setor que exige investimentos expressivos e trabalha frequentemente com margens apertadas, mudanças bruscas nos custos podem comprometer o planejamento e a capacidade de crescimento das empresas.
Panzan defende que o debate sobre o diesel também considere a responsabilidade fiscal, a segurança do abastecimento e a necessidade de políticas que proporcionem maior estabilidade ao ambiente de negócios.
“Independentemente de quem esteja no governo, precisamos discutir a sustentabilidade dessas medidas e suas consequências futuras. Uma decisão que ajuda a conter os preços hoje não pode desconsiderar o impacto de sua retirada amanhã, o setor precisa de transparência, previsibilidade e condições para se preparar. Essa é uma preocupação econômica, que vai muito além de qualquer discussão político-partidária”, avalia.
Para o executivo, o transporte rodoviário de cargas também precisa continuar fazendo sua parte. A busca por eficiência operacional, controle de consumo, manutenção preventiva, planejamento de rotas e redução de quilômetros vazios permanece essencial para melhorar a produtividade e diminuir desperdícios. Da mesma forma, avanços na infraestrutura rodoviária, acesso a tecnologias mais eficientes e condições adequadas para renovação da frota podem contribuir para reduzir a dependência de soluções emergenciais.
“Temos a responsabilidade de tornar nossas operações cada vez mais eficientes. Mas eficiência não elimina a necessidade de um ambiente econômico minimamente previsível. O transporte rodoviário participa diretamente do custo dos produtos, da competitividade das empresas e do abastecimento do país. Por isso, quando discutimos a sustentabilidade econômica do setor, estamos tratando de algo que interessa a toda a sociedade”, conclui Panzan.
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RODRIGO BERNARDINO DA SILVA
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