O medo de perder dinheiro, direitos ou conquistas é um dos principais gatilhos que mobilizam as pessoas

Da urna à carteira de investimentos, passando por atos do cotidiano, psicóloga e educadora financeira explica como o medo de perder e a euforia induzem decisões individuais

Por TARCISO SOUZA
6 Min

Vitaly Gariev/ Unsplash
Vitaly Gariev/ Unsplash

O medo de perder é um dos gatilhos emocionais que mais induzem decisões, seja de eleitores, seja de investidores. Ele também pesa em gestos pequenos do dia a dia, como a compra por impulso na promoção ou o receio de ficar sem aquilo que todo mundo parece ter. O que está em jogo pode variar entre dinheiro, direitos e conquistas, mas o mecanismo costuma ser parecido, já que abrir mão do que já se tem pesa mais do que o prazer de conquistar algo novo.

Entre os eleitores, o medo da volta da família Bolsonaro aparece à frente. A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (21) mostra que 44% temem esse retorno ao poder, em uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL), enquanto 42% temem a reeleição do presidente Lula (PT). O levantamento, encomendado pela TV Globo e pelo jornal O Globo, também aponta que mais da metade dos eleitores diz que não votaria no candidato do Partido Liberal de jeito nenhum. Em um cenário assim, a decisão de voto passa, para muita gente, menos pelo que se quer conquistar e mais pelo que se teme perder.

Com o dinheiro, o mesmo gatilho aparece e altera o comportamento decisório. No primeiro pregão depois do primeiro turno, no dia 5 de outubro, o Ibovespa, principal índice da Bolsa, avançou 7,70% e superou pela primeira vez os 200 mil pontos. O dólar recuou 4,12% e encerrou próximo de R$ 5,00. Foi a maior alta diária da Bolsa desde março de 2020. Oito dias depois, na terça-feira (13), com novas pesquisas apontando redução da diferença entre os candidatos, a Bolsa caiu 1,04%. 

Para Fernanda Schmitz Pereira, psicóloga e educadora financeira, medo e euforia parecem emoções opostas. Porém, a profissional avalia que esses sentimentos podem produzir um efeito semelhante, o de reduzir a capacidade de avaliar alternativas com calma. "No instante de maior entusiasmo, o ganho dos outros é lido como um ganho que eu estou perdendo, e a oportunidade parece uma janela prestes a fechar. No medo, a queda de um dia parece o começo de uma perda sem fim, e vender a carteira e fugir para um lugar seguro oferece alívio. Nos dois casos, o investidor está regulando a própria emoção, e não o patrimônio, o plano que traçou", argumenta.

Esses gatilhos psicológicos ganham, no mercado financeiro, o nome de FOMO, sigla em inglês para fear of missing out, o medo de ficar de fora dos ganhos dos outros. Diante de uma valorização rápida e de relatos de ganhos, as pessoas podem sentir que precisam agir imediatamente para não perder uma oportunidade que parece estar ao alcance de todos. Costuma ser associado à euforia da alta, quando a pressa de entrar vira argumento. Em período eleitoral, porém, opera nas duas direções, tanto para estimular a compra apressada quanto para provocar vendas ao menor sinal de perigo, porque a notícia chega a toda hora, em pesquisas, grupos de mensagens e redes sociais.

"Na segunda, quem olhava a tela sentiu que o trem estava saindo da estação. Conforme a eleição foi, digamos, 'entrando em um túnel escuro', parecia que tudo virava vagão fantasma. O mercado deu um passo para cada lado. Porém, na cabeça do investidor que viveu as duas emoções opostas, é preciso disciplina para agir conforme o trilho estabelecido e não descarrilar para fora da estratégia", analisa Roberto Pereira, especialista em planejamento financeiro e investimentos e CEO da ATEX Investimentos.

É neste ponto que os sentimentos eleitorais e decisões financeiras, por exemplo, são embaralhados. A validação social amplia esse impulso. Quando amigos, influenciadores e manchetes repetem a mesma leitura, seguir o movimento coletivo parece mais seguro do que sustentar uma decisão própria. "A sensação de consenso traz conforto psicológico. Se todos parecem estar comprando, a pessoa acredita que o risco diminuiu, quando na verdade o preço pode já refletir boa parte daquele otimismo. Errar com o grupo costuma parecer menos doloroso do que ficar de fora e ver os outros ganharem", acrescenta a psicóloga.

Engana-se quem pensa que o FOMO termina assim que a decisão é tomada. O mesmo mecanismo que estimula a pessoa a agir reagindo às notícias e informações coletivas continua atuando depois, enquanto ela acompanha a reação da carteira. "A urgência de entrar pode virar urgência de sair. É assim que o investidor corre o risco de comprar na euforia e vender no medo, acumulando duas decisões impulsivas sobre o mesmo ativo", observa Fernanda.

Para saber quando a emoção assumiu o comando, a psicóloga aponta três sinais. O primeiro é a urgência, a sensação de que é preciso agir agora. O segundo é a comparação, o hábito de medir a própria carteira pelo ganho do colega ou do influenciador. O terceiro é o excesso de confiança, a crença de que dá para acertar ao mesmo tempo o resultado da eleição e o momento exato de entrar ou sair. "Quando dois desses sinais aparecem juntos, vale dar um tempo antes de decidir. Decisão financeira tomada no pico da emoção raramente é a que a pessoa tomaria com a cabeça fria", diz.


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TARCISO ANTUNES SOUZA
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