O fim do treinamento por cargo? Como empresas no Brasil estão trocando curso genérico por evidência de competência

Levantamentos recentes mostram que a maioria das empresas brasileiras já reconhece a necessidade de treinar por competência, não por função, mas poucas conseguiram sair do discurso para a prática

Por ANDRé LOBO
7 Min

O fim do treinamento por cargo? Como empresas no Brasil estão trocando curso genérico por evidência de
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Uma pesquisa da consultoria Gartner mostra que 74% dos líderes de RH já afirmam que suas organizações estão migrando para modelos de gestão baseados em competência. Só que apenas 41% colocaram isso em prática de fato. A distância entre esses dois números resume o momento do mercado de desenvolvimento corporativo no Brasil: a intenção existe, a execução ainda não.

 Por que o modelo tradicional está perdendo espaço

O treinamento por cargo nasceu de uma lógica simples: criar um curso para cada função, ensinar uma vez, medir por presença e satisfação. Uma pesquisa da Sólides aponta que mais de 90% dos desligamentos em empresas estão ligados a falhas comportamentais, não técnicas, o que ajuda a explicar por que apenas ensinar conteúdo técnico específico de um cargo deixou de ser suficiente.

Já para quem adota o modelo baseado em competência, o ganho aparece em indicadores de negócio. Segundo a Deloitte, empresas organizadas por competência têm 57% mais chance de antecipar mudanças de mercado, e 98% mais chance de reter os profissionais de alto desempenho.

O Fórum Econômico Mundial reforça esse movimento em outra direção: pensamento crítico, resolução de problemas complexos e capacidade de aprender e desaprender aparecem entre as competências mais valorizadas globalmente desde 2020, e continuam no topo do levantamento mais recente, de 2025.

#Empresas que já tratam competência como estrutura, não como evento

Ambev é um dos exemplos mais antigos do país. A Universidade Ambev, criada em 1995 (então chamada Universidade Brahma), foi reformulada em 2020 como Ambev On, hoje voltada ao desenvolvimento de habilidades funcionais, de liderança, de negócio e de futuro para cerca de 25 mil colaboradores. Em anos anteriores, a companhia chegou a investir mais de R$22 milhões em um único ciclo de treinamento, envolvendo dezenas de milhares de horas de formação.

Fora do Brasil, mas cada vez mais citadas como referência por aqui, **Unilever** e **Schneider Electric** também abandonaram a lógica de treinar por cargo. A Unilever criou um mercado interno de talentos, em que qualquer funcionário pode se candidatar a projetos temporários com base nas próprias habilidades, não no cargo formal que ocupa. A Schneider Electric usa uma plataforma própria para mapear competências emergentes em tempo real e planejar capacitação antes que o gap apareça na operação.

Onde entram as fornecedoras especializadas

Ao lado das grandes empresas que internalizaram essa lógica, cresce um grupo de consultorias especializadas em estruturar esse tipo de programa para quem não tem escala para montar uma universidade corporativa própria.

Entre elas está a Efoco Soluções, do Grupo Efoco, consultoria de Curitiba especializada em recrutamento e desenvolvimento comercial, que desenvolveu uma arquitetura própria de capability (o termo usado para uma competência aplicada e observável no trabalho, diferente de um treinamento genérico) estruturada em skills, jornadas e avaliação por rubrica de níveis. A base da metodologia comercial da empresa vem do livro Guia de Bolso SPIN para Vendas Complexas, da fundadora Roberta da Trindade, com mais de 25 mil exemplares distribuídos. O portfólio da empresa inclui capabilities como Comercial, Liderança, Comunicação, Inteligência Artificial e Aprendizado Contínuo e Adaptação, esta última classificada pelo Fórum Econômico Mundial entre as dez habilidades que mais crescem globalmente, mas ainda pouco tratada como algo treinável no mercado brasileiro.

"A gente agrupou os programas de desenvolvimento em torno de capability porque isso muda o que conseguimos garantir pro cliente. O diferencial não está só no conteúdo, está na evidência: a gente mede o comportamento a partir de rubricas de níveis, que são réguas simples, do reativo ao avançado, que mostram exatamente onde a pessoa está e o que ainda precisa evoluir. Contamos também com o Futurec, nossa inteligência aplicada pra leitura de tendência de mercado, e estamos desenvolvendo um quadro de tendências que chamamos de Antes de Todo Mundo, pra trazer pro Brasil competências que o mundo já está discutindo, mas que ainda não chegaram por aqui", afirma Roberta da Trindade, fundadora do Grupo Efoco.

 O que muda na prática, para quem contrata

A diferença central entre os dois modelos está em como o resultado é medido. Treinamento por cargo mede presença e satisfação de turma. Capacitação por competência mede comportamento observado no trabalho real, com evidência registrada, seja uma simulação gravada, um checklist de qualificação comercial ou um plano de ação acompanhado ao longo do tempo.

Isso também muda a forma como o profissional se movimenta dentro da empresa. Em um modelo de competência, alguém pode ser realocado para um projeto por causa de uma habilidade específica que desenvolveu, independentemente do cargo formal que ocupa, o que praticamente não acontece em estruturas tradicionais de treinamento fechado por função.

Perguntas frequentes

O que é capacitação por competência (capability)?
É o desenvolvimento de um comportamento observável e aplicável no trabalho real, avaliado por evidência, diferente de um curso ou treinamento genérico ligado a um cargo específico.

Por que empresas estão trocando treinamento por cargo por esse modelo?
Porque, segundo a Deloitte, empresas organizadas por competência têm mais chance de antecipar mudança de mercado e de reter profissionais de alto desempenho, enquanto o treinamento tradicional mede apenas presença e satisfação, sem provar mudança de comportamento.

Quais empresas no Brasil já aplicam esse modelo?
Grandes companhias como Ambev mantêm universidades corporativas próprias voltadas a competência. Consultorias especializadas, como o Grupo Efoco, oferecem essa estruturação para empresas que não têm escala para montar um programa interno completo.

Qual a diferença entre universidade corporativa e capacitação por competência?
Universidade corporativa é o formato institucional em que o treinamento acontece. Capacitação por competência é o método de ensino aplicado dentro desse formato, focado em comportamento observável, não em conteúdo genérico.

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Contribuições para esta matéria:
 Roberta da Trindade, fundadora do Grupo Efoco.
efocosolucoes.com.br · grupoefoco.com.br

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LEONEL DA TRINDADE
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