Por que precisamos tanto de aprovação? Redes sociais transformaram reconhecimento em necessidade

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Dr. Albino Bonomi é médico obstetra e escritor

Quantas curtidas uma publicação precisa receber para que uma pessoa se sinta valorizada? Quantos seguidores são suficientes para transmitir a sensação de sucesso? E por que a opinião de desconhecidos nas redes sociais passou a ter tanto peso sobre a maneira como muitas pessoas enxergam a si mesmas?

 

Em uma sociedade cada vez mais conectada, a busca por reconhecimento deixou de acontecer apenas nas relações presenciais e ganhou uma espécie de "placar público" nas redes sociais. Curtidas, comentários, visualizações e número de seguidores passaram a funcionar, para muitas pessoas, como indicadores de popularidade, sucesso e até autoestima.

 

Para o médico ginecologista, obstetra e escritor Dr. Albino Bonomi, porém, a necessidade permanente de aprovação pode esconder uma questão muito mais profunda: a dificuldade de encontrar dentro de si a segurança que se procura no olhar dos outros.

 

"Quando uma pessoa precisa constantemente que os outros confirmem o seu valor, talvez ela ainda não tenha conseguido reconhecer esse valor dentro de si. O problema não está em gostar de receber um elogio ou uma curtida. O problema começa quando precisamos disso para acreditar que somos importantes", afirma.

 

Segundo o médico, a comparação permanente promovida pelas redes sociais pode potencializar inseguranças que já existiam antes mesmo da chegada da tecnologia.

 

"As redes sociais criaram uma vitrine permanente da vida. O indivíduo olha para o outro e imagina que aquela pessoa é mais feliz, mais bonita, mais bem-sucedida ou mais realizada. Mas ele está comparando a sua vida real com uma versão editada da vida de outra pessoa."

 

A consequência, segundo Bonomi, pode ser um ciclo de comparação e busca por validação: quanto mais reconhecimento uma pessoa recebe, mais ela passa a depender dele para manter a sensação de valor pessoal.

 

"É uma armadilha psicológica. A pessoa publica esperando uma reação. Quando recebe, sente satisfação; quando não recebe, começa a questionar o próprio valor. Aos poucos, a autoestima deixa de ser construída internamente e passa a depender de uma plateia."

 

O problema começa antes das redes sociais  

Para o escritor, entretanto, as redes sociais não criaram sozinhas a necessidade de aprovação. Elas apenas ampliaram e tornaram visível uma característica humana que pode ser construída desde a infância.

 

Essa reflexão aparece em O Ciclo Gestatório de um Homem, obra autobiográfica de Albino Bonomi na qual o autor percorre diferentes etapas da existência e aborda temas como infância, adolescência, casamento, separação, educação dos filhos e processos de autoconhecimento.

 

"Uma pessoa que passou a vida tentando corresponder às expectativas dos outros pode chegar à idade adulta sem saber exatamente quem é. Ela aprendeu a perguntar 'o que esperam de mim?', mas não aprendeu a perguntar 'quem eu realmente sou?'."

 

A obra, classificada pelo Clube de Autores nas áreas de psicologia educacional, memórias pessoais, filosofia, desenvolvimento humano e biografia, parte da experiência pessoal do autor para propor uma reflexão mais ampla sobre a formação humana.

 

Curtidas não substituem vínculos  

Bonomi ressalta que o problema não está na utilização das redes sociais, mas na substituição das relações concretas por uma busca permanente de reconhecimento virtual.

 

"Uma curtida é uma reação. Um abraço é uma relação. Um comentário pode durar alguns segundos; uma conversa verdadeira pode transformar uma vida. Precisamos tomar cuidado para não confundir visibilidade com pertencimento."

 

Para o médico, a solução não passa necessariamente por abandonar as redes sociais, mas por desenvolver uma relação mais consciente com elas.

 

"Precisamos aprender a utilizar as redes sem permitir que elas nos utilizem. Se eu publico uma fotografia porque quero compartilhar uma experiência, tudo bem. Mas se publico apenas para provar que sou feliz, talvez seja importante perguntar para quem estou tentando provar isso."

 

A questão também pode ser especialmente relevante para adolescentes e jovens, que constroem parte significativa de sua identidade em ambientes digitais.

 

"O jovem precisa entender que não é o número de seguidores que determina quem ele é. A personalidade, o caráter, a capacidade de amar, de respeitar e de superar dificuldades valem muito mais do que qualquer métrica de uma plataforma."

 

O caminho de volta para si mesmo  

Na visão de Bonomi, a busca por aprovação pode ser reduzida quando o indivíduo começa a desenvolver autoconhecimento e deixa de medir a própria existência exclusivamente pela percepção alheia.

 

"Talvez a pergunta mais importante não seja 'quantas pessoas gostam de mim?', mas 'eu gosto da pessoa que estou me tornando?'. Quando conseguimos responder isso com sinceridade, a necessidade de aprovação começa a perder força."

 

É justamente nessa busca por compreender a própria trajetória que o autor situa O Ciclo Gestatório de um Homem. A obra acompanha a formação do indivíduo desde o nascimento até diferentes etapas da vida e propõe uma investigação sobre a própria existência e o encontro com o Sagrado.

 

Para Bonomi, em um mundo no qual todos parecem estar disputando atenção, aprender a não depender dela pode ser uma das formas mais importantes de liberdade.

 

"Precisamos recuperar a capacidade de viver momentos que não precisam ser fotografados, experiências que não precisam ser publicadas e sentimentos que não precisam receber aprovação. A vida não precisa de uma plateia para ter valor."

 

Serviço: Livro: O Ciclo Gestatório de um Homem
https://clubedeautores.com.br/livro/o-ciclo-gestatorio-de-um-homem