Estudantes de escola pública transformam garrafas PET em fios de lã para confeccionar toucas e cachecóis destinados a famílias em situação de vulnerabilidade
Iniciativa envolve estudantes da Escola Estadual Professor Giampero Monacci, escola pública de Educação em Tempo Integral, em Itambé (PR), e integra sustentabilidade, tecnologia e ação social na criação de peças de inverno a partir de resíduos plásticos.
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31/01/2026 13h09 - Atualizado há 1 mês
créditos: Divulgação
Transformar garrafas PET em fios de lã sintética e, depois, em peças de inverno que irão aquecer famílias da comunidade. Esse é o objetivo do Clube de Ciências Robótica e Sustentabilidade: Ciência, Tecnologia e Solidariedade em Ação, desenvolvido no contexto das Eletivas na Escola Estadual Professor Giampero Monacci, escola pública de Educação em Tempo Integral, em Itambé, no Paraná. A iniciativa reúne estudantes do 8º e 9º ano em uma jornada que combina pesquisa científica, aprendizado na prática, protagonismo juvenil e formação integral. O projeto começou quando os estudantes decidiram investigar como a população lidava com o descarte de resíduos na cidade, em uma atividade que dialoga com o pilar de orientação de estudos. Munidos de formulários impressos, eles visitaram 40 residências e descobriram que boa parte dos moradores desconhecia o destino do reciclável. “Nós ficamos preocupados com o tanto de materiais que são jogados no meio ambiente”, conta Nicholas Eduardo Colares Lopes, de 14 anos. “Descobrimos que muitas garrafas PET são jogadas no lixo, aí tentamos achar um jeito de pegar esse material para ajudar as pessoas.” Aprendizado na prática: da pesquisa de campo à transformação do PET em fio de lã A inquietação levou o grupo, sob orientação do professor Jonathan José de Oliveira Pereira, a pesquisar possibilidades de reaproveitamento do PET, de forma alinhada ao pilar de aprendizado na prática. “Expliquei o que era robótica, sustentabilidade e começamos a trabalhar com as Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Depois disso, eles colheram os dados na comunidade e começamos a pensar no que poderíamos modificar”, relata. Ele lembra que assumiu o projeto de forma inesperada. “Entrei de paraquedas no projeto. Falei para a turma: ‘vocês precisam me ajudar; vamos juntos desenvolver um trabalho que seja impactante na vida de vocês e na minha’.” A virada veio após uma visita à empresa Plásticos Itambé, onde os estudantes conheceram diferentes tipos e densidades de plástico e descobriram que o PET pode ser transformado em fio. A parceria se consolidou e a empresa passou a fornecer o material triturado (flake), fundamental para a fase prática. “Depois que levamos nossa ideia, eles vão fornecer todo o material triturado para nós”, explica o professor. Com investimento de R$ 20 mil do Fundo Rotativo da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED-PR), o clube equipou uma sala exclusiva com máquinas permanentes, ferramentas e uma impressora 3D, reforçando o papel do Tempo Integral na ampliação das oportunidades de aprendizagem. A partir disso, os estudantes iniciaram testes de fusão e extrusão do material. “Eu sempre gostei da parte da tecnologia, e agora estou me aprofundando mais. Estou mexendo com a impressora e tentando ajudar o máximo possível”, afirma Nicholas. O desenvolvimento técnico também se articula ao pilar de projeto de vida. Daniel de Souza Campos, 14 anos, conta que precisou vencer desafios de convivência. “Teve uma época da minha vida que eu fazia tudo sozinho. O projeto me mostrou que às vezes eu vou precisar dos outros, que eu preciso escutar opiniões.” Hoje, ele opera máquinas como overlock e reta e pesquisa materiais para o clube. “Isso vai ser muito bom para o meu currículo. Pode me ajudar a conseguir uma vaga de emprego.” Para Emilly Valentina Soares Leite, também de 14 anos, a maior transformação foi aprender a se expressar, em linha com o acolhimento e o desenvolvimento socioemocional propostos pela Educação em Tempo Integral. “Eu sou do tipo de pessoa que guarda opinião para mim. Agora estou aprendendo a compartilhar mais”, afirma. Ela também destaca o impacto coletivo. “O projeto ajudou bastante na sociedade, porque reduziu o acúmulo de lixo. Agora tem muito mais reciclado.” Protagonismo juvenil e solidariedade: do laboratório à comunidade O professor Jonathan reforça que o protagonismo juvenil é parte essencial da metodologia da Educação em Tempo Integral e foi colocado em prática em todas as etapas do projeto. “Sempre incentivei que fossem atrás, tivessem curiosidade. Na feira científica, disse: ‘eu cuido da viagem, alimentação e hotel; lá vocês vão fazer tudo’. E eles fizeram”, relembra. Ele conta ainda que o grupo criou, por meio da impressora 3D, o mascote e a identidade visual do projeto, que serão aplicados nas peças prontas. As toucas e cachecóis serão tingidos com corantes naturais — como beterraba, cenoura e casca de cebola — e entregues em embalagens de papel reciclado, fortalecendo o caráter de solidariedade e impacto comunitário. “Nosso objetivo é unir robótica, sustentabilidade e solidariedade em ação”, explica o professor. “Queremos transformar esse fio em cuidado, entregando as peças para pessoas carentes, em especial para uma instituição da cidade”, acrescenta. Entre os estudantes, a sensação de pertencimento é evidente, em sintonia com o pilar de acolhimento. “Eu gostei muito da experiência na Feira de Cultura Científica do Paraná Faz Ciência (FECCI). A sensação de ganhar foi surreal. Esse projeto me salvou, me pegou lá do fundo do poço e me ajudou muito”, conta Daniel, enquanto Nicholas reforça o impacto coletivo: “Esse projeto é maravilhoso. Muitas pessoas que tinham vários problemas foram se abrindo. A socialização que temos aqui é muito boa.” Para Emilly, o sentimento é de futuro: “A questão de saber que estou participando de uma coisa que pode revolucionar é muito especial.” O projeto segue agora para a fase de adaptação final das máquinas e início da produção contínua dos fios, consolidando um ciclo que começa no resíduo descartado e termina em afetos tecidos pelas mãos dos estudantes, ponto a ponto, peça a peça — um exemplo de como a Educação Integral conecta conhecimento, prática e formação humana no dia a dia da escola pública. Sobre a Educação em Tempo Integral A Educação em Tempo Integral é uma proposta pedagógica multidimensional, moderna, nacional, pública e gratuita. A partir de uma oferta de educação que se conecta à realidade dos jovens e ao desenvolvimento de suas competências cognitivas e socioemocionais, propõe a formação integral dos estudantes. Trabalha pilares como projeto de vida, aprendizado na prática, protagonismo juvenil, acolhimento, orientação de estudos e eletivas, que promovem a formação completa do estudante junto aos componentes curriculares já previstos na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e nos componentes curriculares da formação diversificada. O modelo está presente em cerca de 6 mil escolas em todo o país, beneficiando mais de 1 milhão de estudantes. Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
VANESSA MIRANDA MENEZES
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