Assédio no Trabalho: Por Que as Denúncias Continuam Crescendo nas Empresas Brasileiras; Daniela Brum analisa o aumento de 35% nas ações de assédio sexual e aponta onde as empresas estão falhando
Em 2025, o Ministério Público do Trabalho registrou 10 mil denúncias de assédio moral apenas nos primeiros sete meses do ano. Especialistas apontam que o problema está na distância entre o discurso corporativo e a prática do dia a dia.
HABLA FM
18/02/2026 22h36 - Atualizado há 2 semanas
Na imagem Daniela Brum, imagem concedida pela entrevistada para fins jornalísticos
Em 2025, o Ministério Público do Trabalho registrou 10 mil denúncias de assédio moral apenas nos primeiros sete meses do ano. Especialistas apontam que o problema está na distância entre o discurso corporativo e a prática do dia a dia. Os Números Revelam um Problema Estrutural A Justiça do Trabalho registrou crescimento de 35% nas ações de assédio sexual entre 2023 e 2024, saltando de 6.367 para 8.612 processos. No mesmo período, as ações por assédio moral aumentaram 28%, passando de 91.049 para 116.739 processos. Em sete de cada 10 processos envolvendo assédio sexual, a autoria da ação é de pessoas do gênero feminino, revelando o caráter estrutural da violência de gênero no ambiente corporativo. No Ministério Público do Trabalho, os números também impressionam. Entre janeiro e julho de 2025, o MPT recebeu aproximadamente 10 mil denúncias sobre assédio moral em todo o país. As denúncias de assédio sexual contra mulheres cresceram 16,8% entre 2023 e 2024, passando de 1.281 para 1.497 registros. Regionalmente, os dados revelam tendências preocupantes. Na região de Campinas (SP), o número de denúncias por assédio sexual cresceu 19,14% entre janeiro e julho de 2025, passando de 47 para 56 casos. Na Paraíba, o MPT registrou 233 denúncias de assédio nos primeiros seis meses de 2025, sendo 216 de assédio moral e 17 de assédio sexual, uma média de dois casos por dia. Uma pesquisa da KPMG divulgada em 2024 revelou que 30% dos participantes relataram ter sofrido algum tipo de assédio nos últimos 12 meses, e 41% desses casos ocorreram no local de trabalho. O assédio moral e psicológico foi o mais citado, com 46% dos respondentes relatando essa forma de abuso, seguido pelo assédio sexual com 14%. Segundo o estudo "Trabalho Sem Assédio 2025", conduzido pela Think Eva em parceria com o LinkedIn, mais de um terço das mulheres já sofreu assédio sexual no trabalho. Entre as vítimas, apenas uma em cada 10 recorre aos canais formais de denúncia. Mais de 65% das vítimas têm renda de até cinco salários mínimos, evidenciando maior vulnerabilidade das mulheres em faixas salariais mais baixas. "O que mais me preocupa nesses dados não é apenas o volume, mas o padrão que eles revelam", observa Daniela Brum, advogada especialista em direito trabalhista empresarial com 30 anos de experiência. "Apesar de todo o debate público sobre assédio nos últimos anos, as empresas continuam falhando sistematicamente na prevenção. Não é por falta de informação. É por falta de ação efetiva." Onde as Empresas Estão Falhando Segundo Daniela Brum, o problema do assédio nas organizações brasileiras tem raízes mais profundas do que a simples existência de agressores. "As empresas falham em três pontos críticos: na prevenção, no acolhimento das vítimas e na responsabilização dos agressores", explica. Falha 1: Políticas que Existem Apenas no Papel Dados do estudo "Trabalho Sem Assédio 2025" revelam que 92% das vítimas de assédio não denunciam os casos. Entre os principais motivos estão: 55,7% acreditam que nada de fato acontecerá, 55,3% temem a exposição, 46,6% relatam que o ocorrido é minimizado, 41,8% têm medo de não serem acreditadas e outros 41,8% temem demissão. Uma pesquisa da KPMG mostrou que apenas 48% das pessoas que denunciaram assédio receberam algum tipo de retorno. “Vejo isso constantemente, em empresas mal preparadas para enfrentar o tema.” conta Daniela. "Existe um regulamento interno impecável, mas quando você pergunta aos empregados como denunciar um caso de assédio, eles não sabem. Quando você verifica quantas denúncias foram investigadas no último ano, descobre que nenhuma chegou ao fim. Isso não é prevenção, é uma fachada." Falha 2: O Papel da Liderança que Não Lidera pelo Exemplo Dados indicam que 62,4% das situações de assédio reportadas tiveram como responsável alguém com vínculo hierárquico. O problema, segundo Daniela, é que muitas empresas investem em treinamentos para o quadro geral, mas não responsabilizam lideranças que mantêm comportamentos inadequados. "Já vi casos em que o próprio diretor faz piadas de cunho sexual em reuniões, mas a empresa promove campanhas contra assédio. Qual mensagem isso passa? Que as regras não valem para quem está no topo", afirma a especialista. "O exemplo tem que vir de cima. Quando não vem, todo o resto vira teatro." Falha 3: Ausência de Mecanismos Efetivos de Proteção Casos recentes julgados pela Justiça do Trabalho revelam um padrão preocupante. Em decisões de 2024 e 2025, empresas foram condenadas não apenas pela conduta direta dos agressores, mas pela omissão em adotar medidas eficazes de proteção às vítimas. Em um caso recente, uma trabalhadora sofreu assédio de superior hierárquico e seus colegas faziam piadas chamando a de "marmita do chefe", tecendo comentários que associavam sua posição profissional a favores sexuais. A empresa foi condenada não apenas pela conduta do agressor, mas pela omissão em adotar medidas eficazes. "Muitas vezes, a empresa coloca a vítima e o agressor frente a frente para 'mediar o conflito', como se fosse uma questão de comunicação", critica Daniela. "Assédio não é conflito de comunicação. É violência. E tratar como se fosse uma simples divergência profissional é revitimizar quem já foi agredido." Os Custos Crescentes do Assédio Os valores das indenizações por assédio têm aumentado significativamente. Uma trabalhadora de clube recebeu indenização majorada para R$ 50 mil por assédio moral e sexual, além de R$ 10 mil por danos decorrentes de doença do trabalho. Em outro caso, a condenação chegou a R$ 43.519,40, contemplando danos morais e doença ocupacional. Uma consultora de vendas teve sua indenização aumentada de R$ 15 mil para R$ 25 mil em segunda instância, com o tribunal destacando o caráter punitivo e pedagógico da condenação. Os tribunais têm aplicado critérios cada vez mais rigorosos. Empresas estão sendo condenadas não apenas ao pagamento de indenizações, mas também a promover campanhas sobre violência de gênero, assédio sexual e moral, incluindo frases de conscientização nos recibos de pagamento. "O custo do assédio vai muito além da indenização", alerta Daniela. "Tem o custo de imagem, o custo do turnover, o custo da perda de talentos, o custo de recrutamento e treinamento de novos funcionários. Uma empresa conhecida por casos de assédio perde competitividade no mercado de trabalho. Os melhores profissionais não querem trabalhar lá." O Que Precisa Mudar de Verdade Para Daniela Brum, a prevenção efetiva do assédio exige mudanças estruturais, não apenas ajustes cosméticos. Criar Canais de Denúncia Realmente Confiáveis "Não adianta ter um e-mail genérico ou um formulário online se ninguém confia que algo será feito. O canal precisa garantir anonimato, ter protocolo claro de investigação e prazos definidos para resposta", afirma. Investigar com Seriedade e Isenção "Quando recebo uma denúncia de assédio em consultoria, minha primeira recomendação é: contratem uma investigação externa independente. O RH interno dificilmente consegue investigar seu próprio diretor ou gerente com a isenção necessária", explica Daniela. Responsabilizar de Verdade "Se um caso de assédio é comprovado e a empresa não toma providências, ela está dizendo que tolera aquilo. A responsabilização precisa ser proporcional à gravidade, pode incluir desde advertências até demissões por justa causa, e precisa ser comunicada para mostrar que a política é real." Investir em Cultura, Não Apenas em Compliance "Políticas anti-assédio não podem ser mais um documento engavetado. Precisam fazer parte da cultura da empresa, das conversas cotidianas, das avaliações de desempenho. A liderança precisa falar sobre isso regularmente, não apenas uma vez por ano numa palestra obrigatória." Daniela conclui com uma reflexão provocadora: "As denúncias estão crescendo porque as pessoas estão tendo mais coragem de falar. Isso é positivo. O problema é que muitas empresas ainda tratam a vítima como o problema, não o assediador. Enquanto isso não mudar, os números vão continuar subindo e os custos também."
Contribuiu para esta matéria a especialista: Daniela Brum é advogada especialista em direito trabalhista empresarial, com 30 anos de experiência em consultoria preventiva para empresas e departamentos de RH. Sua trajetória combina atuação no contencioso e na prevenção de passivos trabalhistas, além de ministrar palestras e treinamentos corporativos sobre compliance, governança e prevenção de assédio moral e sexual. Autora do livro "Assédio Moral e Sexual nas Relações de Trabalho – Prevenção e Combate", lançado pela Editora Mizuno, Daniela é referência em direito trabalhista no Brasil, com foco em cultura ética e segurança psicológica no ambiente corporativo. Livro disponível para venda: Assédio Sexual e Assédio Moral nas Relações de Trabalho — Editora Mizuno Contato e redes sociais: @danielabrum_adv no Instagram Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
ROBERTA FABIANI DA TRINDADE
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